Recomeçar também faz parte do intervalo
· por Yana
Esses dias, deixei uma xícara de café pela metade em cima da mesa.
Levantei para fazer alguma coisa que agora nem me lembro mais e, quando voltei, o café já estava frio. Olhei para a xícara como quem encontra um pequeno retrato do próprio dia. Eu havia começado algo, me distraído pelo caminho e retornado tarde demais para continuar exatamente de onde parei.
Por alguns segundos, pensei em beber assim mesmo.
Depois, coloquei mais água para esquentar.
Talvez os recomeços sejam um pouco parecidos com isso.
Nem sempre conseguimos voltar para a vida no mesmo ponto em que a deixamos. Às vezes, o tempo passou. A ideia esfriou. A disposição mudou. Aquilo que parecia tão claro antes do intervalo já não parece caber tão bem quando retornamos.
E tudo bem.
Temos o costume de imaginar que um recomeço precisa ser grandioso. Uma segunda-feira organizada, um caderno novo, a casa silenciosa, a mente descansada e uma vontade quase cinematográfica de colocar tudo em ordem.
Mas a maioria dos recomeços não chega assim.
Eles aparecem numa quarta-feira comum, entre uma tarefa e outra. Chegam quando abrimos um arquivo esquecido, quando respondemos uma mensagem que ficou esperando ou quando respiramos fundo e tentamos novamente (ainda sem ter certeza se estamos prontos).
Recomeçar depois de um intervalo pode causar uma sensação estranha.
Durante a pausa, alguma coisa em nós mudou. Mesmo que ninguém tenha percebido. Mesmo que o mundo tenha continuado no mesmo lugar.
Talvez seja por isso que voltar nem sempre significa continuar.
Às vezes, voltar significa olhar novamente.
Você ainda quer aquilo que queria antes?
Esse caminho continua fazendo sentido?
O ritmo que você mantinha ainda combina com a pessoa que voltou?
Nem todo intervalo existe apenas para recuperar as forças e retomar a mesma corrida. Alguns intervalos nos mostram que já não queremos correr naquela direção.
Eu sei que existe uma culpa silenciosa quando demoramos a voltar. Parece que perdemos o ritmo, a disciplina, a oportunidade ou alguma versão mais produtiva de nós mesmos. Olhamos para quem continuou caminhando e sentimos que ficamos para trás.
Mas será que ficamos?
Há movimentos que acontecem enquanto parecemos parados.
Uma semente não parece estar fazendo muita coisa debaixo da terra. Ainda assim, há uma vida inteira se organizando em silêncio antes que qualquer folha apareça.
Talvez algo também tenha se organizado dentro de você durante esse tempo.
Recomeçar não precisa ser uma cobrança para recuperar todos os dias que passaram. Você não deve nada ao calendário.
Pode começar pequeno.
Abrir a janela.
Escrever uma frase.
Guardar uma coisa no lugar.
Voltar a uma ideia por dez minutos.
Perguntar a si mesma o que seria possível fazer hoje, com a energia que existe agora (não com a energia que você gostaria de ter).
Não precisamos retornar inteiros. Podemos voltar aos poucos.
Um pedaço de cada vez.
Com alguma insegurança, um pouco de curiosidade e a delicadeza de quem ainda está reconhecendo o caminho.
Hoje, se você estiver tentando recomeçar alguma coisa, não se apresse para alcançar quem você era antes da pausa.
Talvez essa pessoa tenha precisado do intervalo justamente para que uma nova forma de continuar pudesse aparecer.
O café pode ter esfriado.
A ideia pode ter mudado.
Você também.
Ainda assim, é possível colocar mais água para esquentar, escolher outra xícara e sentar novamente à mesa.
Não para fingir que nada aconteceu.
Mas para descobrir o que pode começar a partir daqui.
Com afeto, Yana